19 de fev de 2013

A dica e olhar do Daniel Chu

A aventura de hoje é do Daniel! Olha que máximo! Obrigada Daniel por sua participação!


"Permanecemos pouco mais de uma hora no topo da África: o pico Uhuru no Monte Kilimanjaro, a 5895m de altitude, localizado no norte da Tanzânia, junto à fronteira com o Quênia. Agora, escrevendo dois meses depois, acho que é quase impossível recordar as emoções daqueles momentos preciosos. Mesmo na hora, era difícil saber exatamente o que eu estava sentindo. Era uma sensação meia de sonho e de descrença em estar vivendo uma experiência única em um lugar tão especial cujo visual é arrebatador: De lá, naquele momento era possível observar a leste o sol nascer acima do Monte Mawenzi (o segundo maior pico do Kilimanjaro com 5149m), provavelmente o nascer de sol mais bonito que vi na vida, a lua cheia que nos acompanhou durante toda a subida ao cume ainda se pondo no horizonte a oeste, o que seria todo o interior de uma enorme cratera ao norte e as famosas geleiras e neves eternas estendendo-se por todo o lado sul, isso tudo em meio a uma vasta planície de savana.

Vista do Topo da África. Ao fundo: Monte Mawenzi. À direita: As neves eternas do Kilimanjaro


Comigo estavam os três que me fizeram companhia ao longo de toda a jornada, desde o início da trilha: minha prima Cláudia e os guias tanzanianos Nechi e Chayo, sem os quais, não seria possível chegarmos lá. Diversos caminhos levam ao cume e o que escolhemos percorrer o mais popular, a rota Machame, também chamada de rota “Whisky” pelo grau de dificuldade (a rota mais tranquila é chamada de rota “Coca-cola”), mas considerada como a rota mais cênica.

Embora o Kilimanjaro seja considerado uma montanha de fácil escalada, uma montanha que exige vários dias para se subir é sempre uma experiência intensa e desafiadora. De fato, não se trata de uma escalada, pois não exige nenhuma técnica de alpinismo, mas é necessária uma boa preparação física e no dia de ataque ao cume, o desafio se mostrou de grande respeito. Neste dia levamos mais de 7 horas para percorrer a distância de aproximadamente 5 km do acampamento base (Barafu Camp a 4673m de altitude) ao cume. Apesar do cuidado que tomamos com a preparação (optando por realizar o percurso em 7 dias, nos permitindo 1 dia adicional para melhor aclimatação), durante esse percurso final, pudemos experimentar alguns dos efeitos mais comuns causados pela altitude como dor de cabeça, enjoo e outros desarranjos. Por conta também do cansaço extenuante, tivemos não apenas que fazer várias paradas não estavam previstas pelo caminho como também passamos a caminhar em um ritmo muito mais lento do que o ritmo pole pole (devagar em Swahili) normal, para que o grupo pudesse continuar junto.

O trecho final do ataque ao cume é particularmente difícil. Com o terreno cada vez mais íngreme e ganhando uma consistência arenosa, cada passo que dávamos para acima era acompanhado de um deslize para baixo tornando a luta tanto física quanto mental. A partir desse ponto, passei a sentir a necessidade de descansar a cada 5 ou 10 minutos por causa da exaustão e sede. A água que carregava já estava parcialmente congelada, o que indicava que a temperatura já estava a alguns graus abaixo de zero e o frio começando a incomodar.

Porém, nada havia nos preparado para o choque que viria a seguir: a volta.

Depois de disputar com os outros turistas a vez para tirar as fotos junto da placa que marca o cume, eu estava tão exausto e com as mãos tão geladas que não aguentava mais focalizar as paisagens deslumbrantes no visor. Ajustei então o zoom no ângulo máximo e entreguei a câmera para minha prima, que assim satisfez a inquietação que vinha alimentando desde que quebrou sua câmera ainda na metade do caminho.

Após um curto descanso começamos a voltar. O caminho de volta não é o mesmo da ida e os mais de 4000 m de altitude que conquistamos em 6 dias de caminhada são vencidos em apenas um dia pela rota mais curta conhecida como rota Mweka usada apenas para a descida. Trata-se de um caminho extremamente íngreme e escorregadio que leva de volta ao acampamento Barafu, depois para o acampamento Mweka e daí para o ínicio da rota.



Vista da Rota Mawenzi: descida do Kilimanjaro














O último trecho é um passeio agradável, mas o primeiro é uma verdadeira prova de resistência e velocidade, no nosso caso ainda acentuda porque como demoramos para chegar ao cume, já partimos de lá atrasados (nossa equipe de carregadores ainda teria que desmontar nossas barracas no acampamento Barafu depois de um breve descanso para voltar a monta-lo no acampamento Mweka onde iríamos passar a última noite).

Vimos-nos como numa corrida nas dunas, usando a gravidade para chegar logo à linha de chegada ao acampamento base. Descíamos como se estivessemos patinando, deslizando os pés, mas mesmo deslizar é uma dificuldade, pois o terreno é pedregoso e todo irregular.

Se o tempo estivesse pior, eu provavelmente teria encontrado novas reservas de energia para deslizar mais rápido e acompanhar o ritmo dos demais, mas depois de sentir por várias vezes o colapso da musculatura das pernas e as descargas de ácido láctico, começei a sentir pena dos meus dois joelhos - ambos já submetidos à operação de reconstrução do ligamento cruzado posterior – e, detestando a experiência, continuei deslizando lentamente no limite da dor.

O sol já estava alto e o frio congelante sentido no cume deu lugar a um calor intenso que tornava ainda mais agonizante essa descida. Por mais uma vez tivemos que parar para descansar. Mas dessa vez, já o pior já havia passado, estávamos a poucos metros do acampamento base. O mundo estava acendendo ao sol da manhã é a vida era extraordinária. Tínhamos subido o Kilimanjaro e em breve estaríamos de volta em casa.

Neste momento, abracei minha prima e não me lembro o que dissemos um para o outro; provavelmente algo banal, mas me lembro vividamente da sua expressão de alívio por termos conseguido e o profundo sentimento de amizade que despertou enquanto percorríamos juntos o último trecho dessa aventura."

Nós e o time de guias e carregadores que tornam possível a aventura. Acima a esquerda: Cláudia. A direita: Daniel



Participe você também! Aqui você ve como participar!


 

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