6 de jun de 2010

Posso errar?






Posso errar?

Leila Ferreira





Há pouco tempo fui obrigada a lavar meus cabelos com o
xampu " errado". Foi num hotel, onde cheguei pouco antes
de fazer uma palestra e, depois de ver que tinha deixado
meu xampu em casa, descobri que não havia farmácia nem
shopping num raio de 10 quilômetros. A única opção era usar
o dois-em-um (xampu com efeito condicionador) do kit do hotel.
Opção? Maneira de dizer. Meus cabelos, superoleosos,
grudam só de ouvir a palavra "condicionador". Mas fui em frente.
Apliquei o produto cautelosamente, enxaguei, fiz a escova de praxe e...
surpresa! Os cabelos ficaram soltos e brilhantes tudo aquilo que meus
nove vidros de xampu certo que deixei em casa costumam prometer
para nem sempre cumprir. Foi aí que me dei conta do quanto a gente
se esforça para fazer a coisa certa, comprar o produto certo, usar
a roupa certa, dizer a coisa certa e a pergunta que não quer calar é:
certa pra quem? Ou: certa por quê?

O homem certo, por exemplo: existe ficção maior do que essa?

Minha amiga se casou com um exemplar da espécie depois
de namorá-lo sete anos. Levou um mês para descobrir que estava
com o marido errado. Ele foi "certo" até colocar a aliança. O que faz
surgir outra pergunta: certo até quando? Porque o certo de hoje
pode se transformar no equívoco monumental de amanhã. Ou o
contrário: existem homens que chegam com aquele jeito de "nada a ver",

vão ficando e, quando você se assusta, está casada " e feliz " com um deles.

E as roupas? Quantos sábados você já passou num shopping procurando

o vestido certo e os sapatos certos para aquele casamento chiquérrimo e,
na hora de sair para a festa, você se olha no espelho e tem a sensação
de que está tudo errado? As vendedoras juraram que era a escolha
perfeita, mas talvez você se sentisse melhor com uma dose menor
de perfeição. Eu mesma já fui para várias festas me sentindo fantasiada.
Estava com a roupa "certa", mas o que eu queria mesmo era ter
ficado mais parecida comigo mesma, nem que fosse para "errar".

Outro dia fui dar uma bronca numa amiga que insiste em fumar,

apesar dos problemas de saúde, e ela me respondeu: Eu sei que
está errado, mas a gente tem que fazer alguma coisa errada na vida,
senão fica tudo muito sem graça. O que eu queria mesmo era trair
meu marido, mas isso eu não tenho coragem. Então eu fumo.
Sem entrar no mérito da questão da traição ou do cigarro,
concordo que viver é, eventualmente, poder escorregar ou sair
do tom. O mundo está cheio de regras, que vão desde nosso
guarda-roupa, passando por cosméticos e dietas,
até o que vamos dizer na entrevista de emprego,
o vinho que devemos pedir no restaurante, o desempenho sexual
que nos torna parceiros interessantes,
o restaurante que está na moda, o celular que dá status, a idade
que devemos aparentar. Obedecer, ou acertar, sempre é fazer
um pacto com o óbvio, renunciar ao inesperado.

O filósofo Mario Sergio Cortella conta que muitas
pessoas
se surpreendem quando constatam que ele não sabe dirigir
e tem sempre alguém que pergunta: Como assim?! Você não dirige?!.
Com toda a calma, ele responde: Não, eu não dirijo.
Também não boto ovo, não fabrico rádios - tem um punhado de coisas
que eu não faço. Não temos que fazer tudo que esperam que a gente
faça nem acertar sempre no que fazemos. Como diz Sofia,
agente de viagens que adora questionar regras: Não sou obrigada a
gostar de comida japonesa, nem a ter manequim 38 e, muito menos,
a achar normal uma vida sem carboidratos. O certo ou o "certo" pode até ser bom.
Mas às vezes merecemos aposentar régua e compasso.



Leila Ferreira é jornalista, apresentadora de TV e autora do livro Mulheres "Por que será que elas..." da Editora Globo.

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